Queda da cobertura vacinal e imprevisibilidade da meningite preocupam médicos

A queda da cobertura vacinal contra a meningite e a imprevisibilidade da doença acenderam o sinal de alerta entre os médicos brasileiros. Com alta letalidade1, a doença meningocócica é uma ameaça para pessoas de todas as idades, mas as crianças até cinco anos são as mais afetadas2.

A meningite pode ser provocada por diversos agentes, mas os mais comuns são os vírus – geralmente menos graves e contra os quais não existe vacina3. Já as bactérias costumam ser mais severas, mas os principais tipos de meningite provocada pelo Meningococo podem ser prevenidos pela vacinação2.

A doença é causada pela bactéria Neisseria Meningitidis, e os sorogrupos A, B, C, W e Y são responsáveis por mais de 95% dos casos2. No Brasil, o meningococo tipo C ainda é o mais prevalente, mas, por se tratar de uma doença imprevisível, pode ocorrer um aumento de casos provocados por outro sorogrupo. Foi o que aconteceu em 2018, em Santa Catarina, quando o meningococo tipo W foi responsável por 43% dos registros da doença na região4.

Em 2020, o Sistema Único de Saúde (SUS) incorporou a vacina conjugada ACWY para os adolescentes de 11 e 12 anos no Programa Nacional de Imunizações (PNI)5.

“Existem muitos tipos de meningite e muitos tipos de vacina para a doença. Embora o tipo C seja o que mais prevalece no Brasil, os sorogrupos W e Y também estão presentes no país, e a vacina conjugada ACWY protege também contra esses grupos”, afirma Carla Domingues, epidemiologista e doutora em saúde pública, que coordenou o PNI entre 2011 a 2019.

O PNI disponibiliza uma série de vacinas para crianças e adolescentes contra a meningite (veja infográfico nesta página). Outras faixas etárias também podem ser imunizadas em clínicas de vacinação.

A epidemiologista enfatiza que é um grande benefício a vacina ACWY estar disponível no SUS para o adolescente, já que são eles os que mais espalham a bactéria que provoca a doença6. Vacinar o adolescente é uma estratégia que, além de proteger o indivíduo, protege também toda a população. O problema, diz ela, é que a cobertura vacinal nessa faixa etária ainda é muito baixa.

Daniel Jarovsky, infecto pediatra e secretário do Departamento de Imunizações da Sociedade de Pediatria de São Paulo, também enfatiza a necessidade de mais campanhas voltadas aos adolescentes. “A taxa de vacinação de meningite em adolescentes não passa de 30 por cento. Por isso, é importante nos esforçarmos muito para aumentar o alcance da vacinação, principalmente nesse público”, enfatiza.

Mas a queda na cobertura vacinal não se restringe aos adolescentes. Em 2020, a vacinação para crianças menores de 1 ano e acima de 1 ano (reforço) também ficou abaixo da meta de 80% estabelecida pelo Ministério da Saúde7. O temor é que a situação se agrave neste ano, em virtude da pandemia de Covid-19.

“A meningite é uma doença muito grave, que só pode ser controlada através de vacinação. Mesmo depois de 10 anos do início da oferta pelo SUS das vacinas meningococo C e pneumocócica, nós ainda vemos casos desses dois tipos. Se o cenário não mudar, podemos ter um aumento considerável do número de casos”, alerta Jarovsky.

Carla Domingues explica que a queda na cobertura vacinal no Brasil é geral. “É um problema sistêmico – os pais não estão levando os filhos para vacinar”, lamenta. “Um dos motivos para essa queda, possivelmente, é o próprio sucesso do PNI”, diz. Graças às vacinas, a incidência de diversas doenças caiu. “Por não ouvirem mais falar de determinadas doenças, os pais começam a achar que a vacina não é mais importante. É preciso lembrar que a meningite meningocócica é uma doença infrequente, porém altamente letal. 20% dos sobreviventes têm algum tipo de sequela neurológica, amputação de membros, dor fantasma e sequelas motoras, muitas vezes debilitantes para o resto da vida”, diz.

Segundo Jarovsky, as sociedades médicas trabalham para alcançar maiores taxas de vacinação de todas as vacinas e, especialmente, das meningocócicas. “A causa da queda da cobertura vacinal é multifatorial, mas o desconhecimento talvez seja o mais importante. É essencial trabalharmos mais a questão da informação. É preciso explicar aos pais a importância da vacina.”

Para conscientizar a população, o médico afirma que é preciso um trabalho conjunto entre os ministérios da Saúde e da Educação. “No caso dos adolescentes, é importante atuar em escolas. Uma das alternativas, por exemplo, seria fazer uma ação integrada do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação, promovendo a semana da meningite, onde se estudaria o tema ao longo da semana e, ao final, se faria a vacinação desse público”, propõe.

Referências

1– CoMO. World Meningitis Day 2021. Disponível em: https://www.comomeningitis.org/world-meningitis-day-2021

2– Doença Meningocócica (https://familia.sbim.org.br/doencas/doenca-meningococica-dm)

3– https://familia.sbim.org.br/vacinas/perguntas-e-respostas/meningite

4- ANAHP. Dos 15 mil casos de meningite ocorridos em 2018, 3 mil resultaram em morte. Disponível em: https://www.anahp.com.br/noticias/noticias-do-mercado/dos-15-mil-casos-de-meningite-ocorridos-em-2018-3-mil-resultaram-em-morte/

5– Calendário Nacional de Vacinação – https://bit.ly/3pywNNr

6– Vetter V, et al. Routinely vaccinating adolescents against meningococcus: targeting transmission & disease. Expert Rev Vaccines. 2016;15(5):641-58.

7– SBIM. Coberturas vacinais no Brasil são baixas e heterogêneas, mostram informações do PNI. Disponível em: https://sbim.org.br/noticias/1359-coberturas-vacinais-no-brasil-sao-baixas-e-heterogeneas-mostram-informacoes-do-pni